sexta-feira, 8 de julho de 2011

Visão Espírita sobre o Batismo

                                                      “Porque Cristo enviou-me, não para batizar,
                                                                                              mas para evangelizar”.
                              
     O batismo é necessário à salvação da alma ou do espírito? Qual é a posição do espiritismo sobre essa prática religiosa? Estas são perguntas que muitos fazem, com freqüência.
     Reitere-se que o espiritismo não adota como prática religiosa o batismo, o casamento, a extrema-unção e outras formas de rituais ou de culto exterior, muitos deles herdados do paganismo e de outras culturas religiosas da Antigüidade (item 5.3. Religião).
     Relativamente ao batismo, julgamos por bem estendermo-nos um pouco sobre o assunto, porque este é um tema que desperta muito interesse nas pessoas, mesmo entre aquelas que não seguem religião alguma, considerando que há uma cultura arraigada de que a salvação da alma depende dessa prática exterior.
     A lógica repele a idéia simplista de que a renovação espiritual se dê com a simples aplicação de água em recém-natos ou adultos. Tais cerimônias eram compreensíveis nas épocas recuadas em que foram empregadas, destinadas a impressionar a memória dos aprendizes, ainda baldos de conhecimentos, sobre o valor da renovação interior, da transformação moral do espírito.
     A palavra “batismo” vem do latim baptismus, com o significado de imersão ou mergulho. A cultura do batismo tem suas raízes muito antes do advento do Cristo.
     Reza a tradição que foi João Batista, filho de Zacarias e Isabel, quem deu início à prática entre os judeus.
     Therezinha Oliveira, em sua obra Estudos Espíritas do Evangelho (Coleção: estudos e cursos), elucida que João Batista, anunciava a vida do Cristo e convidava o povo a ser arrepender dos seus pecados e, aos que o atendiam e se propunham a uma renovação moral, ele batizava (mergulhava nas águas do rio Jordão). Por essa prática, ficou conhecido como ‘o Batista’, ou seja, que batiza.(131).
     Logo se vê que o batismo era apenas a representação ou o testemunho público de arrependimento dos erros e do propósito de se corrigir, isto é, de se “lavar dos pecados”.
     Segundo a tradição bíblica, Jesus, que provinha de família judaica, deixou-se batizar com água por João Batista, talvez para não afrontar ou chocar os costumes dos seguidores das leis mosaicas, mas sabia da puerilidade desse costume, tanto que não batizou ninguém.
     Como adverte Therezinha de Oliveira, na obra mencionada, os próprios apóstolos, que a princípio batizavam, com o tempo e a convivência com Jesus abandonaram essa prática, passando a entender que o batismo verdadeiro é o “Batismo do Espírito Santo”, consistente na sintonia com os Benfeitores do mundo espiritual, e o “Batismo de Fogo”, isto é, as provas que experimentavam na prática do bem, no serviço ao próximo e com vistas ao próprio burilamento individual. (132).
     Quando Jesus falava em “batizar”, no Evangelho, ele não se referia à solenidade conhecida de nós, mas sim do “batismo das dificuldades” que o progresso espiritual exige de cada um de nós para atingir a perfeição.
     Novamente tomamos de empréstimo o estudo precioso de Therezinha de Oliveira, que arremata, em seus ensinos: Jesus, que os ensinou a adorar a Deus “em espírito e em verdade”, jamais instituiu fórmulas materiais nem designou lugares especiais para o culto do Criador.
Mas, pela pouca evolução, muitas pessoas acham falta de um meio material para expressar, tornar concretos os fatos espirituais. Foi assim que, em vez de conservarem a pureza e a simplicidade do Cristianismo, em vez de abolirem as antigas práticas externas de culto, acabaram por infiltrar no Cristianismo rituais, fórmulas, vestes especiais, etc. E o batismo de água, em vez de extinguir, assumiu uma importância maior (que não tinha), perdendo-se o seu significado espiritual, que era: a necessidade de arrependimento e desejo de renovação. (133).
     Enfim, esta preocupação com o batismo, sem qualquer demérito às religiões que adotam esta e outras práticas exteriores, deve passar longe do pensamento do espírita convicto, o qual precisa fazer todos os esforços para, vencendo a influência do meio, se desvencilhar desses atavismos religiosos, sob pena de perpetuar costumes arraigados que em nada contribuem para a sua emancipação como espírito imortal.
     Em vez de se preocupar em batizar seus filhos, o espírita deve matricular-se e a seus filhos nos cursos de evangelização oferecidos, a todas as faixas etárias, pela Casa de Oração, com vistas a obter o seu esclarecimento e de seus familiares a respeito das Leis Divinas que nos regem.
Fonte: Livro Espiritismo passo a passo com Kardec
Autor: Christiano Torchi

domingo, 19 de junho de 2011

Homossexualismo na Visão Espírita - início

“A homossexualidade, também hoje chamada transexualidade, em alguns círculos de ciência, definindo-se, no conjunto de suas características, por tendência da criatura para a comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo, não encontra explicação fundamental nos estudos psicológicos que tratam do assunto em bases materialistas, mas é perfeitamente compreensível, à luz da reencarnação” (Xavier) Espírito Emmanuel (1)

Introdução ainda nos dias de hoje este tema gera muita polêmica em nosso meio, surgindo naturais divergências de opiniões, quando esse assunto entra na pauta das discussões de nós, os espíritas. Intransigência, intolerância e falta de compreensão é o que se vê quase como regra geral, pois a maioria de nós ainda não conseguiu vislumbrar que existe o outro lado da moeda. Falta a muitos a capacidade de ver essas pessoas como irmãos em doloroso estágio evolutivo. Não percebem que o sofrimento deles, quando há, é tanto que, em alguns casos, tiram-lhes a vontade de viver. Quantos, propositadamente, não abandonaram a vestimenta carnal, como fuga ao insuportável preconceito de que sofrem? E os que se isolam, entre quatro paredes, para evitar o contato com a sociedade que os repele como se estivesse diante de uma doença altamente contagiosa.
Como ouvimos várias pessoas dizendo que Kardec não fala nada sobre o assunto, esse foi o motivo que nos incentivou a primeiro pesquisá-lo em suas obras, queríamos ver qual seria mesmo a realidade. Embora muitos, com certeza, não saibam que, mesmo sem falar especificamente sobre esse assunto, ele disse algo a esse respeito. Entretanto, como a maioria de nós espíritas só lê, no máximo, o tal do “Pentateuco” kardequiano, dificilmente irá se encontrar a opinião do codificador do Espiritismo, pois somente na Revista Espírita, que não é considerado parte dele, é que Kardec faz uma abordagem ao tema. Opinião de Kardec Em janeiro de 1866, na Revista Espírita, quando analisa o assunto “As mulheres têm uma alma?”, ele disse o seguinte: As almas ou Espíritos não têm sexo. As afeições que as une nada têm de carnal, e, por isto mesmo, são mais duráveis, porque são fundadas sobre uma simpatia real, e não são subordinadas às vicissitudes da matéria. [...] Os sexos não existem senão no organismo; são necessários à reprodução dos seres materiais; mas os Espíritos, sendo a criação de Deus, não se reproduzem uns pelos outros, é por isto que os sexos seriam inúteis no mundo espiritual. Os Espíritos progridem pelo trabalho que realizam e as provas que têm que suportar, como o operário em sua arte pelo trabalho que faz. Essas provas e esses trabalhos variam segundo a sua posição social. Os Espíritos devendo progredir em tudo e adquirir todos os conhecimentos, cada um é chamado a concorrer aos diversos trabalhos e a suportar os diferentes gêneros de provas; é por isto que renascem alternativamente como ricos ou pobres, senhores ou servidores operários do pensamento ou da matéria. Assim se encontra fundado, sobre as próprias leis da Natureza, o princípio da igualdade, uma vez que o grande da véspera pode ser o pequeno do dia de amanhã, e reciprocamente. Deste princípio decorre o da fraternidade, uma vez que, nas relações sociais, reencontramos antigos conhecimentos, e que no infeliz que nos estende a mão pode se encontrar um parente ou um amigo.
É no mesmo objetivo que os Espíritos se encarnam nos diferentes sexos; tal que foi um homem poderá renascer mulher, e tal que foi mulher poderá renascer homem, a fim de cumprir os deveres de cada uma dessas posições, e delas suportar as provas. A Natureza fez o sexo feminino mais frágil do que o outro, porque os deveres que lhe incumbem não exigem uma igual força muscular e seriam mesmo incompatíveis com a rudeza  (Citado por Dr. Hernani, no cap. IX do livro Você e a Reencarnação).   masculina. Nele a delicadeza das formas e a fineza das sensações são admiravelmente apropriadas aos cuidados da maternidade. Aos homens e às mulheres são, pois, dados deveres especiais, igualmente importantes na ordem das coisas; são dois elementos que se completam um pelo outro.
O Espírito encarnado sofrendo a influência do organismo, seu caráter se modifica segundo as circunstâncias e se dobra às necessidades e aos cuidados que lhe impõem esse mesmo organismo. Essa influência não se apaga imediatamente depois da destruição do envoltório material, do mesmo modo que não se perdem instantaneamente os gostos e os hábitos terrestres; depois, pode ocorrer que o Espírito percorra uma série de existências num mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, ele possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher do qual a marca permaneceu nele. Não é senão o que ocorre a um certo grau de adiantamento e de desmaterialização que a influência da matéria se apaga completamente, e com ela o caráter dos sexos. Aqueles que se apresentam a nós como homens ou como mulheres, é para lembrar a existência na qual nós os conhecemos. Agora vem o principal do texto, em que fala exatamente do assunto que, no momento, estamos tratando: Se essa influência repercute da vida corpórea à vida espiritual, ocorre o mesmo quando o Espírito passa da vida espiritual à vida corpórea. Numa nova encarnação, ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se for avançado, fará um homem avançado; se for atrasado, fará um homem atrasado. Mudando de sexo, poderá, pois, sob essa impressão e em sua nova encarnação, conservar os gostos, as tendências e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas mulheres. (KARDEC, 1993, p. 3-4). Foi-nos necessário colocar o texto um pouco mais longo, pois do contrário a idéia de Kardec poderia não ficar bem clara. O pensamento dele não deixa nenhuma margem à dúvida: “assim se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas mulheres”. Ora, se ele fala em “anomalias aparentes” é porque admitia tais situações como dentro da normalidade, o que em outras palavras, poderíamos dizer as tratou como sendo coisas completamente naturais.
Opinião de autores espíritas Dr. Hernani de Guimarães Andrade, foi, segundo julgamos, quando encarnado entre nós, o maior pesquisador brasileiro sobre o assunto reencarnação. Podemos ver sua opinião, a respeito do assunto em foco, em seus livros Espírito, Perispírito e Alma e Você e a Reencarnação, nos quais dedicou um capítulo ao tema. Vejamos o que coloca neste último: Por que Reencarnação? Em outubro de 1969, tomamos contacto com o primeiro caso de reencarnação por nós investigados, a pedido do Dr. Ian Stevenson. Daí em diante passamos a levantar e a investigar outros mais, por nossa própria iniciativa. Desse modo, em 1972, já nos encontrávamos familiarizados com essa área de pesquisa. A leitura de diversas obras versando sobre a reencarnação e suas pesquisas científicas consolidou ainda mais a nossa crença de que, talvez, a reencarnação fosse uma das causas do homossexualismo, se não a única. Entre os autores que consultáramos figuraram: Muller (1970), Banerjee (1964, 1965) e Stevenson (1966). Mas, naquela ocasião, não era só a explicação das causas do homossexualismo que visávamos descobrir. Na realidade, esperávamos obter também mais uma fonte de evidência de apoio à idéia da reencarnação. O plano inicial era, partindo da investigação por meio da regressão de memória, chegar à causa do comportamento homossexual do paciente. Seria uma explicação do homossexualismo e, ao mesmo tempo, uma evidência da reencarnação. Outro ponto importante era fornecido pela pesquisa direta de casos de reencarnação efetuados por nós, com evidências da possibilidade de troca de sexos, e sustentados em base de relatos de casos semelhantes de outros investigadores. Tudo apontava em direção à validade da nossa hipótese de trabalho. Em suma, a nossa suspeita de que a troca de sexo de uma encarnação para outra talvez fosse, em certas circunstâncias, a principal causa do homossexualismo, mas não a única, especialmente a do transexualismo parecia emergir cada vez mais clara. Existem três modalidades de homossexuais Para que o leitor ainda pouco familiarizado com a questão do homossexualismo, lembramos que, basicamente, distinguem-se três modalidades de homossexuais:  O homossexual genérico, cuja característica fundamental é a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. O homossexual possui o impulso erótico dirigido para indivíduos de seu próprio sexo. No heterossexual esse impulso parece não depender exclusivamente da carga hormônica no organismo. O indivíduo castrado geralmente perde o apetite sexual, mas não muda a direção da atração pelo outro sexo. No homossexual, embora muitos deles possuam órgãos sexuais normais, bem como cargas hormonais suficientes e com atividade sexual normal, verifica-se a impulsão erótica em direção aos indivíduos do mesmo sexo. Nestes casos, o homossexualismo pode ter-se desenvolvido em razão de outros fatores que não a troca de sexo proveniente da reencarnação. Tais fatores podem ser os familiares e educacionais. Há também os circunstanciais, resultantes de situações especiais como, por exemplo, promiscuidade em cárceres, internatos, conventos, comunidades místico-religiosas, iniciações em seitas esdrúxulas, etc. etc. Os homossexuais podem formar pares (casais) em que um deles exerce o papel ativo nas relações sexuais. No caso do sexo masculino, esta diferenciação torna-se mais definida. O travesti é aquele indivíduo que procura assumir a aparência dos de sexo oposto. Nem todo travesti é sistematicamente homossexual, assim como nem todo homossexual é obrigatoriamente travesti. O transexual é a modalidade mais típica do homossexualismo. Neste caso, o indivíduo se sente uma pessoa de determinado sexo, ocupando um corpo físico do sexo oposto; uma mulher em um corpo masculino, ou um homem em um corpo feminino. O transexual sugere fortemente a intervenção da reencarnação em sua ocorrência. No transexual podem ocorrer alterações inatas fisiológicas e cromossômicas. Permitimo-nos deixar sem comentário esse aspecto, para não estender excessivamente o presente capítulo. “Sankhârâ” e homossexualismo Finalizando esse capítulo, pedimos licença para transcrever parte do Cap. X, do livro Espírito, Perispírito e Alma. “...A realidade do Sankhârâ”, revela nos casos que sugerem reencarnação, favorece a hipótese de que pelo menos o transexualismo seja motivado por uma herança reencarnatória. Neste caso, se um indivíduo, que se reencarnou reiteradas vezes com um determinado sexo, vem a renascer com um sexo oposto, ele provavelmente sofrerá problemas do gênero transexualismo. Pelo menos há grande possibilidade de isto ocorrer.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Aprenda com seus Erros

Todo erro tem características positivas. Os fracassos ajudam a desenvolver a personalidade. Aprendemos com as experiências. Tomamos decisões baseadas no conhecimento adquirido. Uma decisão errada nos aconselha a fazer escolhas acertadas e pode produzir transformação.
     Em parte, é com as falhas que desenvolvemos a capacidade de escolher entre o certo e o errado. É assim que a maturidade se desenvolve. Um erro não deve ser a razão para viver com vergonha, reclamações ou culpa. Os fracassos podem ser professores formidáveis.
     Como já disse, errar todo mundo erra! O que fazer depois é a grande questão. Tudo vai depender de você. A postura a ser assumida no dia seguinte é fundamental para se recuperar do erro. É essa atitude que vai determinar o sucesso ou fracasso. Você pode simplesmente calar a voz da consciência ou “tapar o sol com a peneira”, usando desculpas esfarrapadas como muita ocupação, diversão, vícios, ou até mesmo um novo erro. Entretanto, este modo de agir produzirá angústia ainda maior. Somente uma decisão honesta e responsável conduzirá à verdadeira felicidade. Não macule seu futuro carregando vida afora as conseqüências de erros mal resolvidos.
     É necessário que você...
    SUBSTITUA O ERRO PELA VERDADE.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Oração e Cura


Recorres à oração, junto desse ou daquele enfermo, e sofres, quando a restauração parece tardia.
Entretanto, reflete na Lei Divina a que todos, obrigatoriamente, nos entrosamos.
Isso não quer dizer devamos ignorar o martírio silencioso dos companheiros em calamidade do campo físico.
Para tanto, seria preciso não haver sentimento.
Sabemos, sim, quanto dói seguir, noite a noite, a provação dos familiares, em moléstias Irreversíveis; conhecemos, de perto, a angústia dos pais que recolhem no coração o suplício dos filhinhos torturados no berço; partilhamos a dor dos que gemem nos hospitais como sentenciados à pena última, e assinalamos o tormento recôndito dos que fitam, inquietos, em doentes amados, os olhos que se embaciam...
Observa, porém, o quadro escuro das transgressões humanas que nos rodeiam.
Pensa nos crimes perfeitos que injuriam a Terra; na insubmissão dos que se rendem às sugestões do suicídio, prejudicando os planos da Eterna Sabedoria e criando aflitivas expiações para si mesmos; nos processos inconfessáveis dos que usam a inteligência para agravar as necessidades dos semelhantes e na ingratidão dos que convertem o próprio lar em reduto do desespero e da morte...
Medita nos torvos compromissos dos que se acumpliciam agora com os domínios do mal, e perceberás que a enfermidade é quase sempre o bem exprimindo reajuste, sustando-nos a queda em delitos maiores.
Organizemos, assim, o socorro da oração, junto de todos os que padecem no corpo dilacerado, mas, se a cura demora, jamais nos aflijamos.
Seja o leito de linho, de seda, palha ou pedra, a dor é sempre a mesma e a prece, em toda parte, é bênção, reconforto, amparo, luz e vida.
Lembremo-nos, no entanto, de que lesões e chagas, frustrações e defeitos, em nossa forma externa, são remédios da alma que nós mesmos pedimos à farmácia de Deus. (Emmanuel, Reunião pública de 19/2/60, Questão nº 176 - Parágrafo 8º , FCXavier)

domingo, 15 de maio de 2011

Os Perigos da Adolescência: o Namoro, a Paixão, o Sexo e a Droga

"No início, tudo é festa, farra e, de uma forma geral, o jovem não consegue perceber aonde a droga o levará... Foi assim que aconteceu comigo desde que conheci Fábio naquela festa”.
Continuação do Livro “O Abismo Provocado pelas Drogas"

Capítulo II
     Começamos a nos encontrar e eu não percebia a diferença no comportamento de Fábio. Era muito nova, não sabia nada da vida – só tinha treze anos.
     Aos poucos, fui me envolvendo... e, quando percebi, já estava apaixonada. Parece que minha mãe tinha um “sexto sentido” porque não queria que eu saísse com esses novos amigos à noite. Mas não adiantou: Fábio passou a aparecer na hora da saída da escola.
     No início, foi tudo maravilhoso, um namoro de adolescentes. Estava tão envolvida que não percebia que, em certos dias, ele estava agitado, muito estranho; e sempre me deixava esperando, enquanto dizia precisar se encontrar rapidamente com alguns amigos. Quando voltava, estava mais alegre e mais calmo.
     O tempo passava!... Quando não mais suportei a situação de somente me encontrar com ele durante o dia, passei a sair às escondidas, à noite. Dizia que iria dormir na casa de amigas, e minha mãe acreditava – só que passei a sair, e a dormir na casa do Fábio.
     A casa dele parecia uma grande confusão. Sua mãe estava sempre preocupada com as amantes do pai, e nem sempre percebia quando saíamos ou chegávamos – eles não prestavam a menor atenção no que o filho fazia.
     Um dia, perguntei-lhe por que sempre tinha que me fazer esperar enquanto ele ia falar com os amigos. Foi, então, que disse me amar e que já estava na hora de eu participar completamente de sua vida: contou-me que consumia alguns “produtinhos” – como ele os chamava -, só para ficar mais animado.
     A princípio, fiquei assustada e preocupada, mas Fábio tratou logo de me tranqüilizar, dizendo que era um barato e que, se eu quisesse experimentar, tinha certeza de que iria gostar muito...Tive medo e não quis saber daquilo. Mas,a partir daquele dia, Fábio não se escondia mais com os amigos: levava-me junto e eu ficava assistindo enquanto eles se drogavam.
     Foi, então, que eles começaram a me dizer que eu era boba, careta, medrosa; que, quando experimentasse, iria “me amarrar”. Aí, resolvi cheirar um pouquinho, noutro dia mais um pouquinho... e fui gostando, cada vez mais. Até que, aos poucos, começaram a surgir sinais visíveis da droga no meu comportamento. Cheguei a achar que minha mãe estava suspeitando de alguma coisa...
     Fui participando cada vez mais daquelas “reuniões” com eles e, agora, tendo que arranjar dinheiro para comprar a droga de que eu também necessitava.
     Comecei a pegar coisas, disfarçadamente, de minha casa, para vender. Quando não sabia mais o que pegar sem gerar desconfiança de minha mãe, fiquei sabendo como eles faziam para arranjar dinheiro – as formas eram as mais diversas possíveis: além de roubarem em casa como eu, furtavam objetos de amigos na escola, faziam pequenos serviços de entrega de drogas e saíam para a prostituição com homens mais velhos.
     Quando soube disso, fiquei chocada, mas aos poucos foram me convencendo de que era uma maneira certa, segura e rápida de trazer o dinheiro.
     Nessa época, minha mãe começou a desconfiar de meu comportamento. Quis conversar comigo – perguntava o que estava acontecendo e eu sempre dizendo que era coisa da cabeça dela, que não estava acontecendo nada... Acho que, no fundo, ela sabia, mas era muito duro de acreditar.
     O tempo foi passando, os programas foram aumentando e a droga também... Eu já não sabia mais o que fazia...
     Passei a faltar à escola, até que minha mãe foi comunicada. Mas, novamente, inventei que matava aulas para passear com as amigas. Minha mãe chorava, brigava e acabava sempre tudo bem... Como nós temos a capacidade de mentir e nos enganar!
     O relacionamento com Fábio e seus amigos passou a ser só em função da droga... Reuníamo-nos para comprá-la e distribuí-la.
     Os programas foram ficando cada vez mais intensos e começaram a ser realizados em função de sexo e venda de drogas... Até que, um dia, fui denunciada pelo gerente do motel onde estava, e presa junto com meu acompanhante.
     Nesta época, já estava com quinze anos. Minha mãe foi avisada e ficou inconformada; chorou muito, sofreu e não tive mais como negar o que estava acontecendo.
     Então, ela me ofereceu ajuda... Levou-me ao médico e me fez prometer que não voltaria a fazer mais aquelas coisas. Prometi!... Mas já não era mais dona de mim... Não conseguia mais controlar meus impulsos.
     A vida que eu levava era muito diferente da que minha mãe imaginava – a que eu havia prometido a ela.
     Passei a fugir, a sair escondido e a encontrar novamente com aquela turma para me drogar, Minha mãe passou a me perseguir... Nossa vida virou um verdadeiro inferno! Brigávamos todos os dias, a situação foi piorando; meus irmãos já não sabiam mais o que fazer para separar tantas brigas.
     Um dia, ela me prendeu dentro de casa. O meu desespero para sair era enorme... E o dela, também, em me conter... Foi aí que, no meio de tanta loucura, cheguei a agredi-la com xingamentos.
     Ela esperou que eu melhorasse e pediu que eu decidisse o que queria da minha vida, pois a situação já estava de uma forma insustentável...
     Disse-lhe que ficaria melhor, que não faria mais aquilo; e procurei seguir suas regras.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"O Abismo Provocado pelas Drogas"

Palavras da Autora
     O objetivo de relatar toda minha trajetória, através desta história, é esclarecer aos jovens o quanto é sofrida e dolorosa a vida de pessoas viciadas como eu.
     Cheguei ao “fundo do poço”! Minha encarnação, como Selminha, não pôde ser aproveitada foi uma degradação moral, física e espiritual.
     Tento, através deste relato, resgatar um pouco da minha essência... Emergir do lodaçal em que me meti, fazendo algo de proveitoso em favor de outras pessoas – tirando da dor e do sofrimento exemplos para que tantos jovens não desperdicem suas vidas, como eu fiz com a minha.
     Esta obra é também uma oportunidade de aprendizagem, trabalho e crescimento para mim... É um alerta dirigido a jovens e famílias que  convivem com este mesmo problema – a droga...
     Tive esta grata oportunidade – meu primeiro trabalho em favor do próximo – de participar das reuniões de psicografia na Fraternidade Espírita Irmãos de Cascais, como etapa de meu tratamento, desenvolvendo minha própria história...
     Agradeço muito à FEIC toda a ajuda que me foi proporcionada e a possibilidade de tornar este projeto informativo viável, colaborando, assim, para que eu me sinta útil e um pouco melhor com a divulgação de meus erros, que trouxeram ensinamentos valiosos à minha evolução.
Selma Reis.

As “amizades”...
“Tantos foram os avisos de minha família...
Tantos foram os alertas, mas eu não quis ouvir”.

Capítulo I
     Minha história começou no dia em que conheci alguns rapazes, que julgava serem interessantes, espertos, animados. Logo os considerei como meus melhores amigos... Tantos foram os avisos de minha família... Tantos foram os alertas, mas eu não quis ouvir.
     Passei a conviver com eles dia e noite. Achava legal tudo que eles faziam. Ficava sempre muito “animada”... Até que, um dia, de legal, passou a ser desconfortável. Começou a me ocorrer um certo mal-estar... Precisava cada vez mais me drogar; até que ninguém mais quis me ajudar. Achavam que eu tinha me tornado chata e alucinada; pegava todas as coisas para vender ... Precisava, cada vez mais, de dinheiro. O vício me deixou cega. Minha mãe não sabia mais o que fazer.
     Certa vez, entrei num “barato” acima do que meu corpo podia suportar e não voltei mais... Fiquei vários anos nessa loucura até compreender que havia desencarnado, e escutar aqueles que estavam ao meu lado para me ajudar; mesmo depois da minha morte, procurava as mesmas pessoas, os mesmos locais para continuar me drogando.
     Vou contar para vocês como foi minha insana juventude, para que muitos jovens sejam ajudados e não sofram com o vício da droga como eu...
     Tudo começou quando tinha treze anos e fui a uma comemoração no clube de minha cidade. Minha mãe dizia que eu era muito nova para freqüentar esse tipo de festa, mas minhas amigas pediram muito e ela acabou deixando.
     Meu nome é Selminha, fui à festa com mais duas amigas: a Carla, que tinha a mesma idade que eu, e a Luzia, que era mais velha que a gente – já tinha dezoito anos. Por isso minha mãe deixou que fôssemos, acreditando que ela tomaria conta de nós.
     Chegando lá, conheci alguns amigos mais velhos da Luzia: o Ricardo, o Márcio e o Fábio. Foi aí que tudo começou... O Fábio era muito bonito, louro, de olhos azuis e me encantei por ele.
     Dançamos muito naquela noite e não percebi o que acontecia ao meu redor.
     Toda hora Fábio saía de perto de mim para falar com seus amigos e, cada vez que voltava, vinha mais animado e divertido, e eu ficava cada vez mais encantada com aquele belo rapaz que dançava euforicamente comigo. Quando a festa terminou, ele pediu meu telefone e no outro final de semana nos encontramos.
     Eu achava tudo muito divertido. Carla sempre me acompanhava e logo começou a se interessar por Ricardo. Sempre tínhamos um programa animado para fazer, mas sempre em festas com muita bebida e música. Minha mãe não estava gostando nada daquela situação, cheia de eventos. Dizia que precisava conhecer meus novos amigos e que eu não poderia sair tanto assim, alegando que era muito jovem.
     Comecei a ficar triste e brigamos muito por causa dessa sua decisão.
     Fiquei um tempo sem encontrá-los, mas Carla freqüentava a minha casa e arranjou um jeito de marcarmos um encontro durante o dia, após a escola – assim minha mãe não ficaria sabendo.
     Naquele dia, fui toda feliz e comecei a namorar Fábio. Ele disse que tinha sentido a minha falta e fiquei muito envaidecida. Notei que ele estava um pouco nervoso e não tão animado como quando nos encontrávamos à noite em festas, mas, mesmo assim, achei nosso encontro delicioso...

Do Livro “O Abismo Provocado pelas Drogas”
Psicografado por Soraya de Almeida
Pelo espírito Selma Reis.

A Hora Final

Que se passa no momento da morte e como se desprende o Espírito da sua prisão material? Que Impressões, que sensações o esperam nessa ocasião temerosa? É isso o que interessa a todos conhecer, porque todos cumprem essa jornada. A vida foge-nos a todo instante: nenhum de nós escapará à morte.
Ora, o que todas as religiões e filosofias nos deixaram ignorar os Espíritos, em multidão, no-lo vêm ensinar. Dizem-nos que as sensações que precedem e se seguem à morte são infinitamente variadas e dependentes sobretudo do caráter, dos méritos, da elevação moral do Espírito que abandona a Terra. A separação é quase sempre lenta, e o desprendimento da alma opera-se gradualmente. Começa, algumas vezes, muito tempo antes da morte, e só se completa quando ficam rotos os últimos laços fluídicos que unem o perispírito ao corpo. A impressão sentida pela alma revela-se penosa e prolongada quando esses laços são mais fortes e numerosos. Causa permanente da sensação e da vida, a alma experimenta todas as comoções, todos os despedaçamentos do corpo material.
Dolorosa, cheia de angústias para uns, a morte não é, para outros, senão um sono agradável seguido de um despertar silencioso. O desprendimento é fácil para aquele que previamente se desligou das coisas deste mundo, para aquele que aspira aos bens espirituais e que cumpriu os seus deveres. Há, ao contrário, luta, agonia prolongada no Espírito preso à Terra, que só conheceu os gozos materiais e deixou de preparar-se para essa viagem.
Entretanto, em todos os casos, a separação da alma e do corpo é seguida de um tempo de perturbação, fugitivo para o Espírito justo e bom, que desde cedo despertou ante todos os esplendores da vida celeste; muito longo, a ponto de abranger anos inteiros, para as almas culpadas, impregnadas de fluídos grosseiros. Grande número destas últimas crê permanecer na vida corpórea, muito tempo mesmo depois da morte. Para estas, o perispírito é um segundo corpo carnal, submetido aos mesmos hábitos e, algumas vezes, às mesmas sensações físicas como durante a vida terrena.
Outros Espíritos de ordem inferior se acham mergulhados em uma noite profunda, em um completo Insulamento no seio das trevas. Sobre eles pesa a Incerteza, o terror. Os criminosos são atormentados pela visão terrível e incessante das suas vítimas.
A hora da separação é cruel para o Espírito que só acredita no nada. Agarra-se como desesperado a esta vida que lhe foge; no supremo momento Insinua-se-lhe a dúvida; vê um mundo temível abrir-se para abismá-lo, e quer, então, retardar a queda. Daí, uma luta terrível entre a matéria, que se esvai, e a alma, que teima em reter o corpo miserável. Algumas vezes, ela fica presa até à decomposição completa, sentindo mesmo, segundo a expressão de um Espírito, “os vermes lhe corroerem as carnes”.
Pacífica, resignada, alegre mesmo, é a morte do justo, a partida da alma que, tendo muito lutado e sofrido, deixa a Terra confiante no futuro.
Para esta, a morte é a libertação, o fim das provas. Os laços enfraquecidos que a ligam à matéria, destacam-se docemente; sua perturbação não passa de leve entorpecimento, algo semelhante ao sono.
Deixando sua residência corpórea, o Espírito, purificado pela dor e pelo sofrimento, vê sua existência passada recuar, afastar-se pouco a pouco com seus amargores e ilusões; depois, dissipar-se como as brumas que a aurora encontra estendidas sobre o solo e que a claridade do dia faz desaparecer. O Espírito acha-se, então, como que suspenso entre duas sensações: a das coisas materiais que se apagam e a da vida nova que se lhe desenha à frente. Entrevê essa vida como através de um véu, cheia de encanto misterioso, temida e desejada ao mesmo tempo. Após, expande-se a luz, não mais a luz solar que nos é conhecida, porém uma luz espiritual, radiante, por toda parte disseminada. Pouco a pouco o inunda, penetra-o, e, com ela, um tanto de vigor, de remoçamento e de serenidade. O Espírito mergulha nesse banho reparador. Aí se despoja de suas incertezas e de seus temores. Depois, seu olhar destaca-se da Terra, dos seres lacrimosos que cercam seu leito mortuário, e dirige-se para as alturas. Divisa os céus Imensos e outros seres amados, amigos de outrora, mais jovens, mais vivos, mais belos que vêm recebê-lo, guiá-lo no seio dos espaços. Com eles caminha e sobe às regiões etéreas que seu grau de depuração permite atingir. Cessa, então, sua perturbação, despertam faculdades novas, começa o seu destino feliz.
A entrada em uma vida nova traz impressões tão variadas quanto o permite a posição moral dos Espíritos. Aqueles — e o número é grande — cujas existências se desenrolam indecisas, sem faltas graves nem méritos assinalados, acham-se, a princípio, mergulhados em um estado de torpor, em um acabrunhamento profundo; depois, um choque vem sacudir-lhes o ser. O Espírito sai, lentamente, de seu invólucro: como uma espada da bainha; recobra a liberdade, porém, hesitante, tímido, não se atreve a utilizá-la ainda, ficando cerceado pelo temor e pelo hábito aos laços em que viveu. Continua a sofrer e a chorar com os entes que o estimaram em vida. Assim corre o tempo, sem ele o medir; depois de muito, outros Espíritos auxiliam-no com seus conselhos, ajudando a dissipar sua perturbação, a libertá-lo das últimas cadeias terrestres e a elevá-lo para ambientes menos obscuros.
Em geral, o desprendimento da alma é menos penoso depois de uma longa moléstia, pois o efeito desta é desligar pouco a pouco os laços carnais. As mortes súbitas, violentas, sobrevindo quando a vida orgânica está em sua plenitude, produzem sobre a alma um despedaçamento doloroso e lançam-na em prolongada perturbação. Os suicidas são vítimas de sensações horríveis. Experimentam, durante anos, as angústias do último momento e reconhecem, com espanto, que não trocaram seus sofrimentos terrestres senão por outros ainda mais vivazes.
O conhecimento do futuro espiritual, o estudo das leis que presidem à desencarnação são de grande importância como preparativos à morte. Podem suavizar os nossos últimos momentos e proporcionar-nos fácil desprendimento, permitindo mais depressa nos reconhecermos no mundo novo que se nos desvenda.
O JULGAMENTO - Uma lei tão simples em seus princípios quanto admirável em seus efeitos preside à classificação das almas no espaço.
Quanto mais sutis e rarefeitas são as moléculas constitutivas do perispírito tanto mais rápida é a desencarnação, tanto mais vastos são os horizontes que se rasgam ao Espírito. Devido ao seu peso fluídico e às suas afinidades, ele se eleva para os grupos espirituais que lhe são similares. Sua natureza e seu grau de depuração determinam-lhe nível e classe no meio que lhe é próprio. Com alguma exatidão tem-se comparado a situação dos Espíritos no espaço à dos balões cheios de gases de densidades diferentes que, em virtude de seus pesos específicos, se elevam a alturas diversas. Mas, cumpre que nos apressemos em acrescentar que o Espírito é dotado de liberdade e, portanto, não estando imobilizado em nenhum ponto, pode, dentro de certos limites, deslocar-se e percorrer os páramos etéreos.
Pode, em qualquer tempo, modificar suas tendências, transformar-se pelo trabalho ou pela prova, e, conseguintemente, elevar-se à vontade na escala dos seres.
É, pois, uma lei natural, análoga às leis da atração e da gravidade, a que fixa a sorte das almas depois da morte. O Espírito impuro, acabrunhado pela densidade de seus fluídos materiais, confina-se nas camadas inferiores da atmosfera, enquanto a alma virtuosa, de envoltório depurado e sutil, arremessa-se, alegre, rápida como o pensamento, pelo azul infinito.
É também em si mesmo — e não fora de si, é em sua própria consciência que o Espírito encontra sua recompensa ou seu castigo. Ele é seu próprio juiz. Caído o vestuário de carne, a luz penetra-o e sua alma aparece nua, deixando ver o quadro vivo de seus atos, de suas vontades, de seus desejos. Momento solene, exame cheio de angústia e, muitas vezes, de desilusão. As recordações despertam em tropel e a vida inteira desenrola-se com seu cortejo de faltas, de fraquezas, de misérias. Da infância à morte, tudo, pensamentos, palavras, ações, tudo sai da sombra, reaparece à luz, anima-se e revive. O ser contempla-se a si mesmo, revê, uma a uma, através dos tempos, suas existências passadas, suas quedas, suas ascensões, suas fases inumeráveis. Conta os estágios franqueados, mede o caminho percorrido, compara o bem e o mal realizados. Do fundo do passado obscuro, surgem, a seu apelo, como outros tantos fantasmas, as formas que revestiu através das vidas sucessivas. Em uma visão clara, sua recordação abraça as longas perspectivas das Idades decorridas; evoca as cenas sanguinolentas, apaixonadas, dolorosas, as dedicações e os crimes; reconhece a causa dos processos executados, das expiações sofridas, o motivo da sua posição atual. Vê a correlação que existe, unindo suas vidas passadas aos anéis de uma longa cadeia desenrolando-se pelos séculos. Para si, o passado explica o presente e este deixa prever o futuro. Eis para o Espírito a hora da verdadeira tortura moral. Essa evocação do passado traz-lhe a sentença temível, a increpação da sua própria consciência, espécie de julgamento de Deus. Por mais lacerante que seja, esse exame é necessário porque pode ser o ponto de partida de resoluções salutares e da reabilitação.
O grau de depuração do Espírito, a posição que ocupa no espaço representam a soma de seus progressos realizados e dão a medida do seu valor moral. É nisto que consiste a sentença infalível que lhe decide a sorte, sem apelo. Harmonia profunda! Simplicidade maravilhosa que as instituições humanas não poderiam reproduzir; o princípio de afinidade regula todas as coisas e fixa a cada qual o seu lugar. Nada de julgamento, nada de tribunal, apenas existe a lei imutável executando-se por si própria, pelo jogo natural das forças espirituais e segundo o emprego que delas faz a alma livre e responsável.
Todo pensamento tem uma forma, e essa forma, criada pela vontade, fotografa-se em nós como em um espelho onde as imagens se gravam por si mesmas. Nosso envoltório fluídico reflete e guarda, como em um registro, todos os fatos da nossa existência. Esse registro está fechado durante a vida, porque a carne é a espessa capa que nos oculta o seu conteúdo. Mas, por ocasião da morte, ele abre-se repentinamente e as suas páginas distendem-se aos nossos olhos.
O Espírito desencarnado traz, portanto, em si, visível para todos, seu céu ou seu inferno. A prova irrecusável da sua elevação ou da sua inferioridade está inscrita em seu corpo fluídico. Testemunhas benévolas ou terríveis, as nossas obras, os nossos desígnios justificam-nos ou acusam-nos, sem que coisa alguma possa fazer calar as suas vozes. Daí o suplício do mau que, acreditando estarem os seus pérfidos desejos, os seus atos culpáveis profundamente ocultos, os vê, então, brotar aos olhos de todos; daí os seus remorsos quando, sem cessar, repassam diante de si os anos ociosos e estéreis, as horas impregnadas no deboche e no crime, assim como as vítimas lacrimosas, sacrificadas a seus instintos brutais. Daí também a felicidade do Espírito elevado, que consagrou toda a sua vida a ajudar e a consolar seus irmãos.
Para distrair-se dos cuidados, das preocupações morais, o homem tem o trabalho, o estudo, o sono. Para o Espírito não há mais esses recursos. Desprendido dos laços corporais, acha-se incessantemente em face do quadro fiel e vivo do seu passado. Assim, os amargores e pesares contínuos, que então decorrem, despertam-lhe, na maior parte dos casos, o desejo de, em breve, tomar um corpo carnal para combater, sofrer e resgatar esse passado acusador. (LEON DENIS, "Depois da Morte", caps. 30 e 31)
Fonte: Instituto André Luiz.